Livro em Aberto


ao pé do ouvido; voz abafada, e o que se camufla – do desejo -, deixar escapulir com a rouquidão, e, o pé do ouvido, morder, rouquidamente romper com o que está acortinado.

 

com que o ouvido outro, que não é o seu próprio, escute, silenciosamente – e lentamente, e deliciosamente – o som que abafa o desejo; o desabafo do que se espreme dentro do peito.

 

não é grito, porque é sensual. e também não é ríspido, digo, ansioso, porque é doce, apesar de ser desejo.

 

com que o ouvido outro, - que quer ouvir -, depois de escutar, transforme tudo ao redor em som, e depois de um leve espasmo, fale.

 



Escrito por Carol às 23h36
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E a vontade visceral? Aquela que atravessa o eixo no momento em que invade o corpo do corpo, que toma o corpo desejador num gole ardente, e o faz tremer tamanha vontade de vontade de invadi-lo e de fato corporificar-se?!

 

Desejo que não é secreto quando surge, que vem dilacerando, acelerando, palpitando a carne, fazendo o olho pulsar de tanto querer ver, sugar, experimentar o desejo, a princípio sem rédeas, cavalgando crânio adentro, percorrendo as veias famintas, querendo e existindo, e coexistindo, carne com aquilo que não é carne, até que,

 

a vontade vai sendo enjaulada; trancando o corpo em si mesmo, enclausurando os sentidos mais primitivos, entalando o corpo de desejos oprimidos; tornando a carne pura massa, rija, e áspera – porque é sempre cortante quando se ignora um querer que é o seu próprio!

 

Entulhar vontades, nunca é por opção originária: o corpo agora, como um tubo lotado de nãos (porque de repente, escuta-se um sopro no ouvido, uma sonoridade apaziguadora, mas, que, ao mesmo tempo, castra). E, castradores de nós mesmos, o sopro nos ensina a falar uma mesma língua (...) e nos faz esquecer que temos desejos diferentes, dissonantes, arredios e rebeldes.

 

Tornemos nossos corpos surdos contra o sopro repressor! Eis que a carne deixará de ser só massa e dominará o mundo, sem medo, sem nada, por pura vontade de deixar-se ir! Por puro êxtase de ser apenas corpo levado por si mesmo, a qualquer lugar!



Escrito por Carol às 00h41
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