Das prateleiras empoeiradas, os livros de capa-dura desmantelando-se, sendo cuspidos de tantos inda não lidos, ou melhor, aos montes bisbilhotados na contra-capa apenas. De lá busquei a inspiração, porque quando há poeira, há certa dose de fatos acumulados; vontade que surge, depois que a sujeira toma assento, da resolução infinda (até que não exista mais meio senão organizar, criar - ou ser engolido pelo acúmulo).
Das letras maiúsculas, em negrito, colocando-se diante meus olhos de forma imponente; delas busquei a resposta; nelas. Mas as palavras nunca me convenceram, sempre me assustaram. Eu, de frente à prateleira suja: as palavras estavam dizendo sobre mim; formulavam frases que me traduziam naquele momento íntimo (porque descobri ser mais fácil lidar com fatos inferiores a mim; quando há superioridade fora, a poeira fica evidenciada).
Porque do acúmulo que eu encontro as respostas (porque se não acumulo fico vazia).
A minha cabeça: cheia. Eu, oposto. O meu tempo. Realmente é diferente. Meu timbre é outro – inventado por mim e no fundo eu entendo você, porque meu tom é desconhecido.
O que falar? Nada, fecho a boca; sem sorriso. As palavras engasgaram minha garganta. Caminho muito devagar; de repente parei de correr, porque estou fraca. Encabulada, olho para frente e não vejo nada.
Não quis, é o que posso dizer; não pude querer – tentei (é o que eu quero que acredite).
Fazer o quê? (também fica difícil de saber, é sempre tudo confuso, por quê?). Eu não me canso de dizer que ser leve é ser feliz. Querer ser leve. Ser, porque querer não basta, como eu já disse - acumular menos.
(Covardia foi ter me chamado de covarde, porque o covarde nem abre a porta. Não que eu tenha entrado, mas abri; olhei para dentro, gostei. Pesquisei tímida no meu tempo. Porque aos poucos fui deixando você se aproximar; entrar).
Hoje, de frente à prateleira suja. Preciso dar um jeito em minha vida.
Escrito por Carol às 04h02
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Decidi escrever. Ter você numa folha de papel. Por que é tão difícil? Por que de repente você se tornou tão grande? Noutro dia me lembrei do filme do Jabor. Agora sou eu o ratinho da história. Você se lembra? No roteiro o ratinho era Ele enquanto Ela crescia, crescia, anulando o coitado do ratinho, pisando, e Ele diminuindo, sumindo. Agora sou eu que olho para você e mal enxergo seus olhos. Você não pára de subir, crescer e tomar o espaço todo. Você hoje é o gigante.
O que mais me intriga é perceber que as pessoas simplesmente trocam de papéis. Num dia acreditei ser uma estrela: só andava em cima do salto sem medo de cair. Noutro dia um outro achou estranho ter mudado sua atitude; sua personalidade parecia outra, “Isso é inadmissível, nunca fui assim”, disse ele nervoso.
Como se fossemos de gesso. Como se fossemos programados, ao nascer, a ser assim ou assado para o resto de nossas vidas. Vi que não. Vi você de perto e você se entristeceu por isso. Porque você só consegue estar feliz sozinho, sem ninguém para apontar o você para você. Você quer ser outro. Quer ser cada vez mais gigante. Mas o gigante é o ratinho ao contrário. Hoje entendo bem disso. O ratinho se esconde na grandeza até vir alguém e tirar a capa, e pluft: ratinho de novo.
Sempre existirá alguém para desmascarar. Para nos desmantelar (desnudar). E por vezes existe tanta capa que o processo de se desnudar machuca. Arranca a pele e arranha.
CategoriA: Citação
Escrito por Carol às 02h35
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